31 de Outubro de 2008

La Casa Dalle Finestre Che Ridono


O filme não é de todo ruim, mas por comentários de amigos, confesso que esperava mais. A estória do restaurador Stefano (Lino Capolicchio) que ao chegar a uma pequena cidade italiana passa a investigar estranhos acontecimentos ocorridos com o pintor do afresco de São Sebastião que tenta restaurar é razoável, mas sinceramente careceu de um roteirinho mais bem elaborado e de uma produção melhor acabada. Enquanto o incipiente investigador adentra nos meandros da cidade e descobre os segredos de seus habitantes somos atacados por uma horda de situações lugar-comum que veríamos depois em uma infinidade de obras. Não há como discutir o caráter inovador do filme em 1976, como também não há como negar que La Casa... não resistiu tão bem ao tempo e, numa inversão irônica, acabou por se tornar uma obra comum.

Vamos aos fatos – Stefano tem um amigo na cidade que tenta alertá-lo do perigo em investigar os desdobramentos da vida do pintor, mas o que ocorre? O amigo morre. O tal mistério principal envolve um caso de família mal resolvido e todos na cidade têm consciência dos crimes, mas o único disposto a falar é um bêbado (o Coppola de Gianni Cavina), que logicamente carece de credibilidade. Há o affair do protagonista (a bela Francesca – Francesca Marciano) a quem desconfiamos no início, mas descobrimos a posteriori ser apenas mais uma vítima. A polícia não descobre nada quando é convocada pelo incauto investigador. E, por fim, o personagem mais óbvio aparece como o derradeiro vilão. Ou seria vilã? Por mais simpáticos que sejamos ao gênero, é fato que a produção sucumbiu à superexposição dos próprios clichês.

Infelizmente, a concepção estética da produção também tende ao local comum. Obviamente, o filme é bem retratado, a música é boa e algumas seqüências realmente causam tensão. Entretanto, não há nada no filme de Pupi Avati que se destaque. Mais uma vez tudo (ou quase tudo) caiu na vala comum. Não há como negar que contemporâneos e conterrâneos de Avati como Argento e Fulci são bem mais gráficos não só do ponto de vista da violência, mas também no acabamento estético. Por outro lado, é impossível não reconhecer que assistir ao filme é uma boa diversão. La Casa.... tem um bom ritmo e apesar de óbvia, a trama prende a atenção. Até o lugar comum do cinema italiano lá nos 1970 é diferenciado.

Ponto Alto: o melhor momento, sem dúvida, é a tomada com a tal "casa das janelas que riem”.

Ponto Baixo: faltou um pouco mais da boa e velha sensualidade italiana.

21 de Outubro de 2008

Cidadão X


A história da caçada da polícia soviética ao insaciável serial killer Andrei Chikatilo deu um excelente telefilme com gente do porte de Stephen Rea, Donald Sutherland e Max von Sydow no elenco. Na verdade, a história é focada nas perrengas enfrentadas pelo médico-legista Viktor Burakov (Rea) elevado à condição de investigador e perseguidor do mais cruel assassino da cortina de ferro, que matou mais de 50 jovens nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Toda a investigação passava pelo crivo do partido comunista e os problemas eram muitos, não só pelo ponto de vista ideológico, mas principalmente pelas limitações estruturais.


O filme faz severas críticas ao sistema comunista e uma coisa ou outra ainda parece provocação gratuita (uma vez que Citizen X é de 1995), mas é evidente a falta de tato por parte do governo soviético para enfrentar um monstro como Chikatilo (aqui vivido com a angústia necessária por Jeffrey DeMunn). Mas será que é simples enfrentar um homem que leva uma vida aparentemente normal, mas para saciar um instinto bizarro ou uma frustração deplorável molesta e mata crianças? Definitivamente não, uma vez que do lado de cá da ficção, países ricos sofrem com a profusão destes monstros sociais, cuja imprevisibilidade da atuação torna praticamente impossível qualquer ação de prevenção. O que países com um aparato tecnológico melhor e um banco de dados mais completo geralmente faz é identificar e tirar de maneira mais célere o serial killer de circulação, pois no caso de Chikatilo o próprio governo soviético se negava a acreditar na existência de um assassino tão brutal – o que realmente dificulta e muito qualquer trabalho.


Apesar de detalhes como o fato de todos falarem inglês na União Soviética (isto me causa incômodo desde Casa dos Espíritos) e o protagonista ser um ser humano composto apenas de virtudes deixarem a produção com a cara da boa e velha dialética maniqueísta do cinema americano, isto não estraga o fato de Cidadão X ser uma produção intrigante e muito bem realizada. Na verdade, o que importa é que o filme é bem conduzido e deixa o espectador ligado até os créditos finais. E olha que estamos falando de uma produção feita para a televisão. Merece e muito ser descoberto.


Ponto Alto: Donald Sutherland como o oficial irônico que agiliza por baixo dos panos as coisas para o esforçado Burakov destila talento. E olha que o pai do nosso querido Jack Bauer levou no piloto automático.


Ponto Baixo: A entrada do psiquiatra interpretado por Sydow, que cria o tal relatório Cidadão X com o perfil psicológico do assassino é feita de supetão. A importância do personagem é fundamental na trama, entretanto ele é muito mal explorado.

2 de Outubro de 2008

Abre Los Ojos


Quando Tom Cruise e Cameron Crowe realizaram Vanilla Sky todos acharam o filme diferenciado e correram atrás do original, idealizado por Alejandro Amenábar e protagonizado por Eduardo Noriega um tempinho antes. Muitos se frustraram com o filme espanhol, mas o preconceito é infundado, pois, apesar da versão americana ser mais bem realizada (produção caríssima e tal), é fato que não é mais interessante (e muito menos original, obviamente) que seu antecessor. Enquanto Tom Cruise - apesar de qualquer preconceito que se possa ter contra o cara - passeia quando posto em comparação com o nosso eterno platinha queimada Noriega, Cameron Diaz definitivamente não é melhor que sua rival latina (Najwa Nimri) e no duelo Fele Martínez versus Jason Lee sugerimos um empate técnico com ligeira vantagem para o americano. Como Penélope Cruz é a tal musa Sofia nas duas produções e o personagem do psquiatra tanto faz como tanto fez, deixamos o desempate para outro diferencial que é o clímax do filme. E aqui é inegável que o original é mais sustentável que seu primo rico. Sem falar que ter a idéia original também conta pontos e, dessa forma, o ouro vai para Amenábar.


Novamente acompanhamos a trajetória do playboy mulherengo (mas sensível e inteligente) que se vê diante de um dilema ao comer o pão que o diabo amassou depois que fica deformado por conta de um acidente. Ele tinha tudo e com o rosto destruído desliga-se de um mundo no qual sempre reinou como protagonista. Ele não sabe lidar com a sensação de ser desagradável, e aí parte para um tratamento nada convencional. O bom do filme é que a galera com menos de 40 anos vai se identificar com dilemas como envelhecimento, eternidade, beleza, desejo, dinheiro, sexo... Um estudo superficial e deliciosamente pop, mas que inegavelmente causa reflexões. Não é mania de moleque metido a indie não, mas que este pequeno clássico moderno fica ainda mais autêntico e charmoso com sotaque latino isso fica. Pode acreditar!


Ponto Alto: Penélope Cruz quando fala espanhol é mesmo uma atriz diferenciada. É aqui ela se sobressai.


Ponto Baixo: o roteirista teve uma idéia, colocou no papel e viu que o negócio era bom pra ser filmado, entretanto a produção, nitidamente sentido o peso da falta de dinheiro, acaba por exagerar na improvisação em certos momentos. E é nesses momentos que refletimos como a máquina hollywoodiana sabe mesmo tornar mais críveis as fantasias.

23 de Setembro de 2008

Cloverfield - O Monstro


A premissa é avassaladora, mas o resultado ficou aquém do que esperávamos. O ritmo não se mantém e do meio para o final estamos bocejando no aguardo para a conclusão da estória do monstro que resolve destruir Nova Iorque. Pois bem, o filme tem gente de seriado famoso envolvida, um elenco novo e “descolado” e uma idéia que, apesar de não ser nada original, sugere um sopro de criatividade – estamos falando da câmara subjetiva, que empresta um certo tom documental e urgente ao filme e, obviamente, nos aproxima dos personagens.

Falar em personagens, os tais são dignos de seriado! O conflito de um casal de amigos que se gosta e não se assume não sabemos por que cargas d’água é coisa que funcionava lá na época do Barrados no Baile. Pois bem, Rob Hawkins (Michael Stahl-David) é o protagonista e, ao ser “rejeitado” pela amiga Beth (Odette Yustman), aceita uma proposta de emprego no Japão. E é na festa de despedida do baitola que as coisas acontecem. O tal monstro chega destruindo tudo e comendo a todos; no desespero da fuga, uma tragédia aqui, outra ali, e o desespero é grande, mas o que Rob faz? Ele, praticamente a salvo do pior, decide voltar para o lugar dos ataques - que virou um verdadeiro campo de guerra por conta da intervenção do exército - para salvar a amada sem nem saber se a garota está viva. Os amigos (fiéis ou idiotas?) o acompanham.

E o roteiro se sustenta por este fiapo de trama que só funciona para quem deixou de lado qualquer sinal de bom senso. Entretanto, nesta versão ianque de Godzilla, a baboseira de jovens adultos divididos entre o amor e o lado profissional é o que menos importa, o povo quer ver é a destruição e o caos provocados pelo tal monstro. E nisso os realizadores acertaram em cheio no início; ficamos apavorados na primeira metade do filme com a insegurança provocada pela situação, mas esse suspense se dilui à medida que o roteiro força escolhas inverossímeis. No final, a melhor coisa do filme - a tal câmara subjetiva - não funciona mais e o telespectador está cansado deste ritmo frenético e descerebrado. O filme não é ruim, mas tinha potencial para muito mais.

Ponto Alto: a cabeça da Estátua da Liberdade no meio da rua e a cena no túnel do metrô. Momentos que deixaram muita gente nostálgica de Fuga de Nova Iorque e Aliens – O Resgate.

Ponto Baixo: pode ser implicação, mas é fato que a passividade emocional e a ausência de qualquer traço de carisma do tal Michael Stahl-David são constrangedoras e acabam por comprometer toda a produção.

14 de Setembro de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


O novo filme do Batman é realmente diferenciado. Sombrio e, na medida do possível, atrevido, mas é inegável que grande parte desse sucesso se deve a interpretação irretocável de Heath Ledger no papel de Coringa. Não há limites para um personagem tão anárquico. Lembrei de um ensaio de Edgar Allan Poe sobre a peversidade. Caso fosse uma produção menos endinheirada e com mais liberdade artística, a exploração do personagem poderia ir mais longe e não parar em um dilema cafona de bondade. A cena do hospital é antológica, mas depois temos de engolir o desfecho da seqüência do barco. Uma parece que faz parte do nascimento de um talentoso cineasta europeu ainda sem freios, enquanto a outra é a cara das produções protagonizada pelas irmãs Olsen. Tudo embrulhado na mesma produção. Desse jeito, fica difícil qualquer mensuração.

Pois bem, aqui o que menos interessa é mesmo Batman, apesar de alguns forçados conflitos e do auxílio de Lucius Fox (Morgan Freeman) e Alfred (Michael Caine) para dar “sustância” ao herói. Neste caso, temos a história de Harvey Dent (Aaron Eckhart, segurando a canastrice) – promotor incorruptível que depois de um trauma vira o Duas Caras, personificação de uma Gotham City totalmente podre a beira da hecatombe que recebe um empurrão para a completa insanidade pelas mãos do Agente do Caos (essa denominação é muito apropriada). É algo assustador a presença avassaladora do vilão, sempre maquiavélico, irônico, escatológico... a insegurança provocada em algumas seqüências são primorosas; algo que David Fincher sempre buscou e conseguiu, diga-se a verdade, mas em raros momentos.

O Coringa é o contraponto perfeito a mesmice do filme que tem de se valer de exageros pirotécnicos que beiram a infantilidade e do velho dilema do desespero amoroso para segurar a narrativa. Na verdade, ninguém suporta mais ver os heróis matando milhares de pessoas, pois o bandido mantém sua namorada como refém – a bondade mandando a mensagem que vale sacrificar tudo por amor. Na verdade, o herói não passa de um egoísta que usa seus recursos em benefício próprio. Pois bem, separe o joio do trigo e divirta-se com o novo filme do Batman, digo Coringa. Ah, esqueci de mencionar o Christopher Nolan. Ele, na verdade, merece todos os méritos por entender que o segredo não está no herói, mas sim nos desígnios dos vilões. Parabéns para o cara; fez um filme acima da média nessa mediocridade que paira no cinemão - e tem gente que ainda briga por achar genial os conflitos adolescentes vividos por Peter Parker.

Ponto Alto: Why So Serious?! Novo ícone pop.

Ponto Baixo: a voz forçada de Batman. Impossível não rir!

12 de Setembro de 2008

O Portal

Trata-se daqueles filmes orientais violentos, mas este aqui está longe de ter um roteiro elaborado ou alguo emblemático. Na verdade, aqui não há absolutamente nada de inventivo – um grupo de jovens (alguns são tão jovens que parecem crianças) se perde em meio a uma floresta e são mortos pelo sobrenatural (no melhor estilo Premonição) ou por um serial killer (aqui vamos de slasher mesmo). Sempre que o pesadelo está para acabar, mais surpresas. E, por fim, o confronto final que não é tão FINAL assim...


Estamos falando de uma produção tailandesa com pinta e estilo de filminho americano, mas então por que ver este tal de Rap Nawng Sayawng Khwan? Simples – o gore. Obra de arte neste quesito!!! Cada coisa exagerada e pra lá de divertida. Para os iniciados um deleite, pra quem não ta acostumado só vai ter de novo o estilo silábico e entoado de falar dos tailandeses, logicamente mais próximo dos chineses que dos japoneses. Mas é importante avisar que ninguém vai passar alheio a tanta sangueira. Esqueça completamente o senso crítico e boa diversão. Vale a pena.


Ponto Alto: gore, gore, gore, gore.


Ponto Baixo: a forçada no desfecho é uma das coisas mais imbecis que vi nos últimos tempos. Pode até amarrar algumas coisas que acontecem durante o filme, mesmo assim não dá pra aceitar de coração aberto.

22 de Maio de 2008

O Franco-Atirador


Este filme é bom pra CARALHO. Desculpe a grosseria inicial, mas este pequeno épico intimista assinado por Michael Cimino me deixou eufórico. Um filme pesado, mas muito bem conduzido e que propõe uma visão antibelicista, no mínimo, engenhosa. Sem falar em um elenco de causar comoção em qualquer pessoa. Pois bem, reza a lenda que após o sucesso do filme (laureado de todas as formas) Cimino se lançou em um projeto que simplesmente quebrou a United Artist – o faroeste cabeça Portal do Paraíso. Hoje gente considera cult, mas não posso emitir qualquer juízo de valor, pois nunca o vi. Mas o assunto aqui é outro e que parece bem mais unânime.

O roteiro é de autoria do próprio Cimino em parceria com Deric Washburn, e, segundo consta, foi inspirado em escritos de um veterano alemão da 1° Guerra Mundial. Em O Franco-Atirador, realizado em 1978, temos um grupo de amigos descendentes de russos (ou ucranianos, isso não fica bem certo), moradores de uma pequena cidade na Pensilvânia e dividem o tempo entre o trabalho em uma siderúrgica, a bebedeira e a caça de veados nas belas montanhas geladas que cercam o lugar. A turma é formada pelos irmão Michael (Robert De Niro) e Nick (Christopher Walken) e pelos amigos Steven (John Savage), Stanley (John Cazale), John (George Dzundza) e Axel (Chuck Aspegren). Michael, Steven e Nick estão de viagem marcada para defender o país na Guerra do Vietnã. Porém, antes da guerra, há o casamento de Steven com cerimônia realizada em uma igreja ortodoxa e comemorada em uma festa pra lá de animada – são seqüências de uma plasticidade incrível. No meio da bebedeira, os três futuros combatentes demonstram a ansiedade e a incerteza gerada pelo desafio que está por vir. Completando o bafão, Linda (Meryl Streep), namorada de Nick, e cortejada pelo cunhado Michael. Sei que parece putaria barata, mas a coisa vai bem além do desejo carnal.

Na guerra, os três são capturados e obrigados a “brincar” de roleta russa para divertimento dos inimigos. Um trauma que cada um encara de maneira diferente. A roleta russa (um tiro só pra matar a caça) é o que vai pontuar toda a trama daí por diante. Uma guerra que deixou seqüelas não só para quem a enfrentou. Poderia soar piegas, mas não é isso o que acontece. Não sei se a reação mais habitual, mas eu realmente me emocionei - sorri nos momentos felizes (o encontro de Michael com os amigos depois da guerra) e os olhos marejaram nas cenas mais intensas.

Visualmente o filme também é um assombro – as montanhas da Pensilvânia ou as próprias cenas internas são retratadas com uma sensibilidade assombrosa. A música faz aquele estilo épico marcando época – exatamente o que aconteceu. Sem falar da ambigüidade sobre o conceito de nação e as mais variadas alegorias para a roleta russa; interpretações variadas e difusas mas todas enaltecendo virtudes nobres. O filme decididamente não é fácil, mas merece toda a atenção. Indispensável.

Ponto Alto: o sensível personagem John, interpretado por George Dzundza. Mesmo diante de um elenco de monstros (alguns só vieram a se consagrar a posteriori) e em um papel menor, ele se sobressai.

Ponto Baixo: as cenas das batalhas na Guerra ficam aquém do restante da obra.

3 de Maio de 2008

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Numa comparação ousada, atrevo-me a dizer que Tim Burton é uma espécie de Fellini da nova geração. Ao invés da estrutura onírica do primeiro, o nosso amigo é soturno e tem preferência por uma atmosfera gótica. Assim como o italiano, Burton criou seu universo nos filmes – todos os personagens são pálidos e o tom que prevalece é o cinza. E adiante nesta comparação inusitada, digamos que o Marcello Mastroianni do americano seja Johnny Depp. Não há dúvida sobre a eficiência da dupla que já provou a fina sintonia em filmes como Ed Wood, Edwards – Mãos de Tesoura e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Burton diz que adora trabalhar com o astro, pois ele não tem medo de se colocar nas mais inusitadas situações; sem falar que o aspecto camaleônico do ator é fundamental para o sucesso da parceria.

Pois feita esta introdução, vamos falar do violento musical Sweeney Todd que mais uma vez confirma o talento da dupla. Trata-se de uma fábula politicamente incorreta ambientada na Era Vitoriana em que um pai de família que teve a vida destruída por um corrupto juiz volta à cidade natal (a nebulosa Londres) em busca de vingança. E, para isso, o rapaz usa o talento de saber manusear como poucos uma lâmina de barbear. Detalhe – ele se hospeda na sobreloja da senhora Lovett (Helena Bonham Carter). Lovett tem uma loja de tortas que vai muito mal das pernas, mas acaba usando a carne das pessoas mortas pelo inquilino para dar uma virada nos negócios. Fechando a história – a filha Johanna (Jayne Wisener) que teve de ser abandonada por Sweeney e viver com seu algoz, o juiz Turpin (Alan Rickman), é cortejada pelo jovem Anthony (Jamie Campbell Bower). O vilão Turpin, então, usa de seu fiel Bedel (o sempre irretocável Timothy Spall) para infernizar a vida do jovem Anthony.

O filme tem um ritmo muito agradável e é extremamente convencional em sua narrativa. Não há aquelas invencionices que já viraram clichês de filmes moderninhos. Mas há um estilo interessante na edição. Ressalta-se ainda a violência nas cenas em que o protagonista degola suas vítimas, sangue aos borbotões. Sem falar que a atmosfera sombria – design de produção a cargo de Dantte Ferretti - e um Johnny Depp à vontade completam o tom acertado do filme. O final não se encaixa propriamente no contexto de fábula, mas cabe perfeitamente no universo idealizado por Tim Burton. Mais um exemplo do bom cinema comercial. Aliás, não posso ir embora sem falar que o cineasta tem a sua Giullieta Masina, estamos falando de Helena Bonham Carter. Ela também faz seu show.

Ponto Alto: o divertido barbeiro fake italiano feito por Sacha Baron Cohen.

Ponto Baixo: realmente os excessivos números musicais enchem o saco – em um certo momento fica ridículo ver Anthony suspirar pela meiga Johanna.

29 de Março de 2008

Maré, Nossa História de Amor


Meu camarada que está na equipe de divulgação do filme pediu uma força. O filme vai estrear no dia 04 de abril no circuito Rio-São Paulo. A coisa promete; como instigação, só conto a presença de Lúcia Murat à frente do projeto. Estou torcendo pra chegar logo em Brasília.

26 de Março de 2008

Um Homem, Uma Mulher


Quem manja um cineminha francês adora dizer que ama Truffaut e Eric Rhomer e odeia Claude Lelouch. A turma malha dizendo que ele faz o cinema francês mais comercial que alguém poderia fazer e que não é, digamos, politizado como seus amigos franceses. Preconceito bobo, pois o cara tem um senso estético apurado, adora carros velozes, tem um refinado gosto musical e adora mulheres bonitas. E para saudar este mestre - recentemente homenageado em uma mostra que rodou o Brasil e pela febre na internet depois que a bacaninha banda de rock Snow Patrol usou o curta metragem C’Était un Rendez-Vous como clipe da música Open Your Eyes - vamos falar do seu filme mais famoso: Um Homem, Uma Mulher. A produção criou praticamente todos os clichês dos filmes de romance. O que dizer de casal correndo pela praia, acompanhado de crianças e um cachorro, tudo ritmado por uma agradável bossa nova e embalado por uma bela fotografia em preto e branco?

Realmente Lelouch gostava de estórias convencionais e aqui não foi diferente – apesar da montagem ter sido bem inventiva. Casal na faixa dos 30 anos se encontra ao deixar os filhos pequenos no internato durante o inverno. Ele ( Jean-Louis Trintignant), um piloto de corridas; ela (Anouk Aimée), uma roteirista amargurada pela morte traumática do marido e que não sabe se vai estar pronta para engatar um novo relacionamento. Feita as apresentações, tome cenas açucaradas, ressentimento, lembranças doces e amargas - tudo envernizado em um acabamento estético de muito bom gosto (e olha que tinha tudo para ser extremamente brega). O final, com a perseguição ao trem, é coisa fina. O filme ganhou Oscar de filme Estrangeiro, Palma de Ouro em Cannes e se transformou em referência obrigatória. Aqui vai uma dica, jogue fora o DVD de Doce Novembro e começe uma bela noite ao lado da amada com os carinhos entre Trintignant e Aimé sob a batuta afiada do mestre Lelouch. Não tem erro.

Ponto Alto: não há um só fotograma em que Anouk Aimée não transpire charme. A balzaquiana perfeita.

Ponto Baixo: A personagem de Aimée seria perfeita, mas a obsessão pelo marido falecido passa do limite do aceitável. O ápice está representado a seguir - “Por que você me disse que seu marido havido morrido?”. A resposta é constrangedoramente piegas - “Ele morreu, mas para mim ainda não”.

15 de Março de 2008

May - Obsessão Assassina

Só me arrisquei com este terror com pinta de gótico, pois o diretor Lucky McKee foi um dos únicos (acho que o único) “novatos” chamados a compor a respeitada turma dos Masters of Horror. Porra, o cara chamou a atenção com este May, então vamos ver o quê realmente é isso. E o filme é surpreendentemente bom. Visual moderno, trama retrô, protagonista angustiantemente estranha e climinha mórbido sempre na ascendente que culmina em um desfecho bacana.

A menina May tem pais estranhos e é rejeitada pelos coleguinhas do colégio por um problema oftalmológico. Ela vive no seu mundo e sua singular amiga é uma boneca guardada em uma caixa de vidro. May fica adulta (vale citar a interpretação magistral de Angela Bettis), mas continua vivendo isoladamente – trabalha como ajudante de um veterinário estrangeiro (Ken Davitian, o produtor Azamat de Borat) e se apaixona pelo estudante de cinema Adam (Jeremy Sisto). Ela também se envolve afetivamente com Polly (Anna Faris), sua doce colega de trabalho A carência e a insegurança de May, obviamente, funcionam como catalisadores da efemeridade dos seus relacionamentos. E aí, tome mais angústia e rejeição e como a garota não tem parâmetros comportamentais bem definidos, além de um certo fascínio por mutilação, a explosão violenta é questão de tempo. ..

Tudo bem, May é mesmo bullying no estilo Carrie na veia, mas, a exemplo do clássico de Brian De Palma, sob uma leitura mais intimista e bem trabalhada que propriamente violenta. Além disso, o filme tem um estilo legal e não lança mão de homenagens cults, as citações são mesmo clássicas, como o Frankstein tatuado no braço de um punk... A coisa é século XXI e, em um mundo repleto de facilidades, o isolamento da menina fica ainda mais intenso e constrangedor. A última cena propõe uma leitura piegas da proposta do filme, mas não macula a boa impressão causada por May. Foi amor à primeira vista.

Ponto Alto: a cena das crianças cegas engatinhando sobre cacos de vidro é um achado. Uma inovação que merece ficar nos anais do cinema extremo.

Ponto Baixo: o tal de Jeremy Sisto é insosso demais. Tudo bem que May era estranha, mas merecia um objeto de afeto melhorzinho.

24 de Fevereiro de 2008

Os Embalos de Sábado à Noite

O clássico maior da era da Disco Music. O filme é forte em suas imagens e na construção do conceito de uma época. Para isso a parte técnica ajudou bastante - teve até inovações na câmera (steady-cam - câmeras menores sem o uso de tripés, rodas ou outros acessórios) a fim de mostrar com mais precisão o rebolado de John Travolta. O filme também é intenso não apenas pelo colorido da Discoteca 2001, mas pelo clima depressivo e questionamentos que pesam na trajetória de Tony Manero.

O início - Manero desfilando seu carisma pelas ruas do Brooklyn - é emblemático e abre a proposta do roteiro. Ali, o garoto é rei. Logo no início, Manero é questionado pelo seu empregador sobre o futuro. Apenas desconversa, pois quer mesmo é viver o presente e continuar seu reinado naquela faixa de território. Descendente de italiano, o protagonista espera o final de semana para bailar (com muita competência) pelas discotecas do bairro. Lá é o sonho de consumo das meninas e o modelo de comportamento para os garotos.

O cara vive às turras com a família - pai desempregado, irmão largando a batina, mãe insatisfeita e arruma brigas com os vizinhos latinos. O personagem de Manero é bem desenvolvido – o cara não é má pessoa, mas é marrento ao extremo e acaba jogando todas as suas insatisfações em cima das garotas e amigos que o idolatram. Um suburbano bacana, mas cheio de imperfeições. Ele encontra Stephanie Mangano (Karen Lynn Gorney) para ser sua parceira em um concurso de dança e começa a questionar sua situação. Ele tem apenas 20 anos e a condição de ídolo do bairro é bacana, mas exige responsabilidade, pois seus amigos e admiradoras cobram atenção e atitudes, e ele não tem maturidade pra lidar com isso.

Reza a lenda que o filme seria comandado por Jonh G. Avildsen, que, segundo Travolta, queria tornar Manero um cara boa-praça, um personagem convencional. Não era essa a proposta e, quando o ator firmou o pé para manter a complexidade de seu personagem, os produtores optaram pelo astro e John Badham passou a comandar o barco. Os Embalos de Sábado à Noite demora a pegar o ritmo e tem atores ruins, mas isso é coisa menor perto de um filme tão importante e que curiosamente propõe muito mais do que se podia supor. Sem falar que Bee Gees é maneiro, Travolta dança pra caramba e o figurino é de primeira. Com tantas qualidades não foi por acaso que virou clássico.

Ponto Alto: o quarto de Manero decorado com pôsteres de Rocky Balboa, Al Pacino e Bruce Lee. Legal quando uma garota compara Manero a Al Pacino. O Dirk Digleer de Boogie Nights tem cheiro de homenagem.

Ponto Baixo: a protagonista Stephanie Mangano. A tal de Karen Lynn Gorney é muito, mas muito fraca. Não tem um pingo de carisma e a carinha de Margot Kidder não colou.

2 de Fevereiro de 2008

Hot Summer in The City


Arrisquei este pornozinho setentista pelo anúncio de que era o filme adulto predileto de Tarantino. E não me decepcionei com o resultado. Sexplotation setentista repleto de perversões, violência e muito estilo. Tem uma trilha sonoroa impecável (umas das melhores do blaxplotation que já tive o prazer de ouvir/ver) e aquela deliciosa imagem granulada e verticalizada. Adicione ainda uma violência ingênua, exagerada e descabida e cenas de sexo explícito com belas garotas. Pérola genuína que só os anos 70 poderia produzir.

Pois bem, o filme foi realizado em 1976 por uma garota, Gail Power, sob a alcunha de The Hare (sentiu a marra?). E só podia ser o felling feminino mesmo, pois em Hot Summer in The City não há bem uma estória, mas aquele velho pretexto pra tentar encadear as imagens e fazer estilo, que é o que realmente interessa. Acompanhamos as aventuras da virgem Debby (a ninfeta Lisa Baker, playmate da década de 1960) – que recusa as investidas do namorado – mas se desespera ao ver a mamãe na farra com dois rapagões. Sai pelo mundo sem eira nem beira e acaba se perdendo nas mãos de quatro negros. A menina é surrada, estuprada, faz às vezes de empregada.... Mas acaba encontrado a redenção e o amor (risos) em um ato exagerado de violência de Duke (Duke Johnson), líder da gangue. O final com a bela ninfeta branquinha andando ao som de Summer in The City é coisa fina. Impossível não sair assobiando a melodia de hot town, summer in the city...

O filme tem apenas 60 minutos e uma produção de fazer sorrir a galera que sua a camisa para fazer valer o cinema amador brasileiro.... Bobo, ingênuo e esquecível, por isso sim um pornô acima da média. Ainda acho Atrás da Porta Verde e Garganta Profunda mais interessantes, mas este aqui com certeza não faz feio.

Ponto Alto: a bela Black Orchid (nunca mais encontrei nada da garota) no papel da rival de Debby. Gata e hiper marrenta.

Ponto baixo: o baixo orçamento, às vezes, faz das suas. Quando um personagem tem o peito estourado por um tiro de escopeta temos apenas a marca do sangue e não há buraco nenhum. Tudo bem, tudo bem... sei que isso é meio frescura, mas que faltou um acabamento melhor aí isso faltou.

30 de Janeiro de 2008

O Gângster


Reza a lenda que quando da feitura de Blade Runner, Ridley Scott tinha a intenção de excluir a narração em off do personagem de Harrison Ford, idéia dos produtores. Porra, este detalhe foi um dos fatores que fizeram a fama cult do filme e coube como uma luva para o clima noir da ficção-científica. Assim, não é de estranhar que ao tenta fazer uma análise sociológica da sociedade americana na década de 1970, com elenco liderado por Denzel Washington, o diretor tenha entregue um filme apenas mediano. Não há qualquer dúvida que O Gângster paira acima da mediocridade que impera no cinema americano, mas ficou aquém da expectativa gerada. Todos esperavam a obra definitiva sobre a relação entre o sonho americano, a questão racial, a violência, a criminalidade, a relação com as drogas e não foi esse o resultado.

Na trajetória de Frank Lucas temos a exemplificação do efeito Eu sou 157 - música dos Racionais MC's na qual Mano Brown conta a trajetória de um bandido pra depois apresentar o final trágico e sem meio termos – a mensagem é que o crime não vale a pena, mas o planejamento do crime é o que fica marcado. Assim como na música, no filme é bem melhor acompanhar a ascensão que a queda (esta, aliás, é bem eufêmica). Nos anos 1970, um negro nascido na Carolina do Norte pode ser o número 1 de uma cidade como Nova Iorque por meio da venda de heroína trazida da Ásia dentro dos caixões que transportavam os soldados mortos na Guerra do Vietnã. Para firmar o negócio, ele busca a mãe e os irmãos e, por meio de comércios de fachada, vai distribuindo a droga e lavando dinheiro. Usa ainda sua influência para deslizar pela alta roda (é cumprimentado por Muhammad Ali e põe um sobrinho para defender os Yankees) . Lucas é maior que a cor da sua pele.

O traficante é inteligente, não resta dúvida, mas com uma lógica meio torta bota tudo a perder por meio de atitudes violentas. Ele luta contra a ostentação dos irmãos, mas a revolta pela redenção por ter crescido em meio a um sul extremamente racista é o ponto fraco do homem. É num ato impensado de exibicionismo, equipado com um indescritível casaco de chincila, que nosso vilão troca os pés pelas mãos e começa a inevitável trajetória ladeira abaixo.

No contraponto de Lucas, há o policial Richie Roberts vivido com competência por Russell Crowe. O cara estuda à noite, está se separando da mulher (mas pega muita gente por fora), foi criado em um local barra pesada e sua honestidade é vista como uma característica negativa pelos colegas de corporação. Assim, o personagem é construído na contramão dos clichês do gênero. O cara lidera uma equipe de investigação antidrogas e é quando seu caminho cruza o de Frank Lucas. O loser branco contra o winner negro, uma dicotomia interessante. Mas o desfecho torna-se desinteressante e até frustrante pela previsibilidade da situação.

Pois bem, o filme tem uma reconstituição de época beleza, músicas maravilhosas e uma produção caprichada, mas peca pela indefinição entre diversão e política. Alguns conseguem fazer isso com maestria, a exemplo Martin Scorcese no início de carreira. Não foi o caso de Scott, que, Deus sabe como, não conseguiu dar o tom necessário a esta epopéia urbana que já nasceu certa. Ainda espero o verdadeiro The Return of Superfy.

Ponto Alto: Josh Brolin como o policial ultracorrupto nos faz rememorar William Forsythe nos bons tempos.

Ponto Baixo: O filme é longo e merecia uma ediçao mais ágil.

3 de Janeiro de 2008

Contra Todos


Fascinante, instigante e altamente deprimente a exposição de uma periferia tão sórdida, mas tão verossímil neste bom filme, que foge de qualquer estereótipo cinematográfico. Dirigido por professor da USP, Contra Todos tem como maior mérito o excelente acabamento na construção de seus perturbados personagens. Filmado com câmara digital em som ambiente e interpretações improvisadas, o filme segue a idéia de um olhar documental sobre existências miseráveis. Impossível ficar indiferente à desesperança de gente sórdida lutando pela sobrevivência em um ambiente tão desagradável.

A opção dos realizadores – Fernando Meirelles entre os produtores – foi construir a trama em uma periferia sombria, sem qualquer resquício daquela pobreza colorida e cercada de trajetórias alegres tão explorada pela mídia nacional. A vida naquela área da zona leste de São Paulo é escura e triste, não há qualquer resquício de felicidade ou sinal de alívio. O filme gira em torno da família de Teodoro (Giulio Gomes). Ele é um matador profissional que, na companhia do amigo Waldomiro (Ailton Graça), executa marginais nas proximidades de onde vive. A família de Teodoro ainda é formada pela filha rebelde, Soninha (Silvia Lourenço), e pela esposa infeliz (Leona Cavalli). Estes quatro personagens se confundem em suas frustrações, anseios e desejos em uma ciranda urbana, sombria e miserável.

O filme tinha tudo para ser uma bomba. Pensa comigo: intelectual paulistano fazendo retrato cru (com câmara na mão) dos pobres da sua cidade, interpretações comandadas pelo improviso e gente graúda na produção. Com exceção de um detalhe ou outro, pensamos logo em Cama de Gato. Entretanto, Contra Todos se prestou a ser apenas um filme e como isso valeu mais que qualquer panfleto repleto de idéias políticas ou interpretações sociais. A crítica está lá, obviamente, mas o filme vale mais como uma tragédia intimista bem elaborada e extremamente bem executada. Cinema brasileiro de primeira.

Ponto Alto: O elenco está irretocável. Não há qualquer crítica que possa ser feita neste sentido.

Ponto Baixo: As reviravoltas do roteiro, apesar de chocantes nas apresentações, foram idealizadas de maneira muito simplista. Pensando com calma, pode-se dizer que essa simplicidade se encaixa no contexto do projeto. Como sou obrigado a falar mal de alguma coisa, fica o registro.

2 de Dezembro de 2007

O Dia Seguinte


Lembrava do filme da época áurea do Supercine, quando era bem garoto. Só me vinha à cabeça a imagem das pessoas correndo ao supermercado a fim de pegarem mantimentos e o efeito radioativo por meio de uma espécie de radiografia, na qual aparecia o esqueleto das pessoas atingidas pela explosão.Revi o filme agora e que surpresa ao constatar que é um típico exemplo, talvez o maior, daquele cinema catástrofe oitentista gerado pela disputa nuclear. Trata-se de um telefilme com cara de anos 80, até pelo jeitão de interior americano, e que se dá ao luxo de expor honestamente uma mensagem pacifista.

Realizado em 1983, o filme ganhou notoriedade por ter sido uma das maiores audiências da TV americana e apresentar de forma nada sutil os reais efeitos de uma guerra nuclear. Toda a turma do Kansas era adepta da calça jeans apertada e da boa e velha camisa xadrez – americanos típicos envoltos em seus problemas cotidianos. O problema é que a região, na divisa entre Kansas e Missouri, armazena as armas nucleares dos Estados Unidos. Alvo óbvio em uma possível terceira guerra. Quando as tais armas americanas são disparadas no auge de uma crise com a URSS gerada pela invasão da Alemanha, a destruição daquela inóspita região é questão de tempo. Chega o bombardeio e seu efeito devastador é retratado de maneira cruel – sem qualquer tentativa de maniqueísmo. Neste filme, a bandeira americana nas portas das casas traz um reflexo irônico da mesquinhez das relações patrióticas e pessoais.

Jason Robards (parece que já nasceu velho) comanda o elenco na pele do cirurgião boa-praça Russel Oakes, que lida com o excesso de trabalho, a maturidade da filha e o relacionamento duradouro com a esposa. Steve Guttenberg é um universitário que tenta voltar pra casa em meio ao caos de um iminente ataque nuclear. Temos ainda a família Dahlberg, envolvida com o casamento da primogênita, e o drama de Billy McCoy (William Allen Young) - militar perdido na própria desgraça. Além de uma boa turma de coadjuvantes, incluindo John Lithgow, como o inteligente professor Huxley. O charme do filme-catástrofe é que o espectador sabe o que vai acontecer, mas a tragédia é desconhecida aos personagens. Isso causa uma angústia tremenda. O roteirista Edward Hume e o diretor Nicholas Meyer trabalharam esse aspecto de forma magistral nos cinqüenta minutos que antecedem às explosões.

O fato que dá nome ao filme, o day after do ataque nuclear, é algo para corar o mais ferrenho milico republicano. Sem esperança, os protagonistas vão se desintegrando, junto com a Nação, vítimas dos devastadores efeitos radioativos naquele ambiente apocalíptico desolador. Apesar do tema nuclear estar démodé, a questão humanitária e a mensagem pacifista pregadas pela produção continuam em voga. A desesperança com que as vítimas recebem o discurso do presidente americano anunciando o cessar-fogo com a URSS e a pouca importância dada ao fato de saber quem disparou o míssil primeiro provam o caráter antibelicista de The Day After. As cicatrizes de uma guerra, qualquer que seja a forma de combate, vão muito além da história recontada pelos vencedores ou dos atos “heroícos”. Não sei é por que Spielberg, que sempre explorou da forma mais imbecil a guerra e outras fobias, se deu tão bem, enquanto Nicholas Meyer teve que se contentar em escrever roteiros para os outros. Como diria Vonnegut, outro antibelicista ferrenho, são “coisas da vida”.

Ponto Alto: a cena final quer sair piegas, mas, na verdade, causa comoção. Impossível não ficar emocionado.

Ponto Baixo: algumas cenas foram nitidamente enxertadas. Faltou um pouquinho mais de esmero na edição.

22 de Novembro de 2007

A Tale of Two Sisters


Sons e imagens primorosos em um terror oriental old school. Na verdade, A Tale of Two Sisters parece mais um drama intimista europeu sobre o delicado tema da relação familiar. Depois de uma temporada fora, duas irmãs voltam a viver com a madrasta e o pai em uma bela casa de campo. Situações mal resolvidas no passado vêm à tona. As meninas agridem a madrasta que parece ter uma culpinha mesmo no cartório. E naquela de ter algo no passado desconhecido e apenas sugerido ao espectador vamos sendo absorvidos por uma atmosfera onírica assustadora. A tensão vai crescendo aos poucos e aparições fantasmagóricas vão arrepiar a espinha. Segredos são construídos e descontruídos até a resolução da trama.

O legal neste tipo de terror oriental está em envolver o espectador com os personagens e seus dramas. Daí vem a comoção quando ocorrem as assombrações e as mortes. Desde a década de 1980, o horror americano não constrói esta estrutura narrativa da melhor forma possível. Olha que sou fã de slashers americanos, mas confesso que o envolvimento é mesmo muito superficial. Contraditoriamente, o exemplo maior deste “estilo” está em um clássico do terror setentista americano – O Exorcista. A angústia do padre interpretado por Jason Miller, o sofrimento de Ellen Burstyn ao ver a filha passar por um processo tão devastador importam mais que o terror. E é por isso que O Exorcista é tão assustador, ainda nos dias de hoje. E Kim Ji –Um (diretor de A Tale of Two Sisters) usou esta fórmula de maneira brilhante, sem falar que esteticamente seu filme é belíssimo. Vale a pena conferir. A propósito, lançaram o filme em DVD aqui no Brasil com o título de MEDO. Então tá fácil. Cuidado que já tem remake pronto.

Ponto Alto: o elenco está irretocável. A madrasta interpretada por Yeom Jung-a é bonita e interpreta sua personagem com ambigüidade na medida certa.

Ponto Baixo: o final traz uma resolução meio forçada e, de certa forma, convencional.

11 de Novembro de 2007

O Fim e o Princípio


Sou fã de Eduardo Coutinho. O cara tem uma técnica genuína e um acabamento estético ímpar em seus documentários. Merece sim toda a badalação em torno de seu nome. O Fim e o Princípio apenas corrobora seu talento. No entanto, a repetição do tema sertanejo forte, que não é novidade desde a época de Euclides da Cunha, e a falta de um direcionamento para a produção fazem deste uma obra menor – ao menos, na minha opinião - na trajetória de Coutinho.

Essa falta de direcionamento é explicitada no primeiro minuto do filme, quando o cineasta confirma que vai filmar sobre alguma coisa no sertão nordestino. E a intenção é que a coisa flua no decorrer das gravações. Uma câmara na mão e uma idéia na cabeça (olha que original?!) Ele pára, então, em uma cidade do interior da Paraíba a fim de descobrir algum agente da Pastoral da Criança que conheça a região para lhe dar um direcionamento. Encontra a desenrolada Rosa, mas no primeiro contato com pessoas de uma vila rural mais afastada percebe que o filme deve virar apenas um canal para o sertanejo apresentar queixas contra as condições insatisfatórias do lugar, do trabalho... Solução para fugir do panfletário – filmar as pessoas do vilarejo (Araçás) da simpática guia.

Aí é aquele exercício de estilo primoroso do cineasta no retrato dos anciãos sertanejos. Os rostos marcados por rugas e as mãos calejadas da lavoura não têm cultura, mas sabem muito da vida. E apesar de apontar um canhão para a pessoa e logicamente tirar um pouco da naturalidade do cotidiano, Coutinho sabe deixar o entrevistado o mais relaxado e natural possível. O cineasta se anula quando é possível e proporciona aqueles imensos e constrangedores silêncios nas explanações dos paraibanos. Na questão de se anular, destaque para a cena em que alguém pergunta se o cineasta acredita em Deus.

O respeito às pessoas é imenso e não há aquela forçada de tornar as cenas emocionantes ou de manter o distanciamento maravilhado e babaca no retrato de vidas tão diferentes. O filme é visceral, seco – sempre tive a impressão de que Coutinho nos deixa aquele amargo na boca que só se tem ao ler Guimarães Rosa. Agora, é fato que ao focar tão somente o rosto de uma pessoa a imagem causa estranhamento ao próprio retratado. E o filme brinca com isso, como na seqüência em que uma senhora vê uma foto dela com um cachimbo. O Fim e o Princípio seria a obra definitiva de muita gente, mas em relação a Coutinho vou buscar em Cabra Marcado para Morrer a essência da sua obra.

Ponto Alto: a fotografia é arrebatadora.

Ponto Fraco: pouco mais de uma hora já estava de bom tamanho, mas filmar todas as pessoas praticamente duas vezes deixa o filme arrastado demais. Fica chato!

26 de Outubro de 2007

Calafrios


Acabei de sair do cinema depois de ter visto aquela bomba chamada Os Invasores - . A bomba tem diretor alemão e a pior atriz de todos os tempos no elenco, além de jurar de pé junto que se trata de uma nova versão da estória de Jack Finney. Além de uma mensagem duvidosa do ponto de vista sociológico e ético, presenciei duas horas de uma ficção científica frouxa e que mais parecia teatro infantil. Sem falar daquela porra convencional de ter de ir atrás do filho mesmo que a existência humana tenha de ser sacrificada, do olho no olho no momento de desespero, das conclusões geniais feitas por pessoas comuns em questões de segundos, dentre outras merdas. Pois bem, ficção científica parte de premissas inverossímeis, daí o talento de seus realizadores em fazer algo que ao menos se torne crível ao primeiro olhar. Isso não acontece com a produção hollywoodiana, que se leva a sério demais. Entretanto no filme Calafrios, obra seminal de Cronenberg, temos um dos modelos mais fidedignos desta proposta de invasores de corpos – que serviu e ainda é usada para uma infinidade de alegorias.

Feito no início da carreira do nosso canadense preferido, o filme é repleto de erros, mas é muito autêntico em identificar o espectador com sua situação ilógica. Vejamos, a trama toda se passa em um condomínio de luxo em uma isolada ilha canadense e a epidemia é causada por um erro de cientistas que pretendiam criar uma bactéria que se adaptasse ao corpo humano e se transformasse em órgãos – dispensando a necessidade de transplante no caso de alguma debilidade fisiológica. Entretanto, uma garota do condomínio é usada na experiência, que obviamente dá errado. Como a epidemia se alastra principalmente por relações sexuais e a menina é promíscua...

O espectador acompanha o desenvolvimento dos sintomas - terríveis cólicas abdominais e monstrinhos em forma de larva – por meio de Nicholas Tudor (Allan Kolman). Os sintomas são aqueles tipo zumbi de praxe, acrescido do fato dos infectados terem uma maior compulsão sexual. Lógico que alguns são mais maliciosos e sedutores, e outros, digamos, mais compulsivos mesmo. Nossos heróis são o “galã” Paul Hampton, como o Doutor Roger St. Luc e sua namorada, a enfermeira Forsyth (Lynn Lowry). Ele faz o tipo McQueen dos pobres, enquanto ela é a ninfetinha esperta. O legal é que os personagens têm seus atos heróicos limitados a suas condições físicas e a própria situação a qual estão envolvidos.

O elenco em si não compromete o resultado final que, a despeito de uma série de imperfeições, são compensados por aquele delicioso climinha B dos anos 1970. Sem falar que o melhor do cinema de Cronenberg do início da carreira está aqui – teses científicas absurdas e assustadoras, aquele povo branquelo e feioso do Canadá e, é claro, a sexualidade. Enfim, cabe dizer que o clima onírico indispensável a uma idéia tão surreal e pretensiosa está em Calafrios, mas não no filmeco de Nicole Kidman. Mais uma vez o cinema parece andar para trás.

Ponto Alto: a cena final é um deslumbre.

Ponto Baixo: muitos erros de edição passam do limite do aceitável. Personagens mudam de posição de um enquadramento para outro, entre outros.

20 de Outubro de 2007

Island of Death


O filme é uma coleção de pequenas bizarrices com uma temática meio torta, que tenta fazer críticas ao puritanismo ou a instituições mais conservadoras como a igreja. Tudo bem! Mas o lance é que a pretensão, a falta de recursos e a maluquice dos realizadores (deveria ser distribuído ácido antes das gravações) deixam a coisa com um ar lisérgico e fake demais. A trama é a seguinte: casal inglês vai parar em uma ilha paradisíaca na Grécia e tentar limpar o lugar das influências ruins. Qualquer tipo de comportamento fora do convencional será punido com violência pelos justiceiros do bem. Mas o cara é atormentado e também tem de lidar com suas taras – faz uma zoofilia com uma cabra e depois a mata, pois a bichinha é a culpada de tudo. Lógica zero...

Pois bem Christopher (Bob Behling) e Celia (Jane Ryall) ainda matam um restaurador francês que queria fornicar com a moça, um policial (ou detetive) negro que sai de Londres no encalço da dupla e acaba morto ao estilo James Bond, um casal de gays que acabou se de casar, uma lésbica junkie, uma viúva rica e pervertida etc. Em meio a tanta justiça, a moça fica atormentada e pensa em desistir, mas Christopher insiste na idéia de deixar lugar limpo. Lá pelas tantas, Célia sofre um a tentativa de estupro por parte de dois hippies e Chris tem de resolver o problema da forma mais convencional possível. Depois da reviravolta final, os dois são acolhidos por um humilde pastor de ovelhas. E como o desfecho já tinha sido revelado no início do filme, ficamos por aí.

Realizado em 1975 por um grego doido chamado Nico Mastorakis, o filme é até fácil de ver, mas não diz nada e não leva a lugar nenhum. Não é plástico o suficiente como poderia se esperar de uma produção setentista pouco convencional; nem, tampouco, inteligente em sua ironia, como o diretor pretendia. Entretanto, se tivéssemos um protagonista no estilo maluco-carismático tudo será amenizado. Nada feito, pois o tal Bob Behling deveria estar mesmo muito doido e sua atuação é apenas caricata. Pois é, nem a beleza das paisagens gregas salva o filme. Tem gente que gosta – ganhou estrela de cult, mas na minha humilde opinião o lugar de Island of Death é mesmo no ostracismo.

Ponto Alto: a música folk dá um tom acertado ao clima lisérgico da produção.

Ponto Baixo: sabe qual a grande revelação final? Celia e Christopher são irmãos. Não, isso não. Nossa, relação incestuosa. Estou chocado até agora! Fala sério - esse detalhe não acrescentou nada. Dispensável.

4 de Outubro de 2007

Funny Games


Michael Haneke é mesmo um diretor acima da média. E só descobri o cara agora por meio da minha atenciosa e sempre antenada amiga, Jamile. Bem, vamos falar de Funny Games, esta pequena obra-prima recheada de sarcasmo e violência. A trama é absurdamente simples – Anna (Susanne Lothar), Georg (Ulrich Mühe) e o filho pequeno são torturados por dupla de malucos, em bela casa de veraneio. É só isso mesmo, mas além da tortura com aquela frieza européia- aquele desprezo blasé em seu exagero psicológico -, ainda há uma infinidade de alegorias propostas.

A tortura é extremamente cruel sem razão de ser – a interpretação mais teórica fala do exagero para ridicularizar as situações exploradas pela cultura de massa. Vários temas são abordados – religião (a oração forçada de Anna é de doer o coração), MTV, a bagaceira do punk se sobrepõe aos acordes de uma ópera ou de uma música clássica. Grosso modo, pode-se falar naquela tão combalida cultura popular engolindo e reconstruindo o processo cultural puro. Proposta ousada que aqui se sustenta sem maniqueísmos.

A despeito de todo o empirismo, como cinema também vale a satisfação. O diretor brinca com o espectador não apenas nas colocações de metalinguagem, mas a angústia toma proporções gigantescas quando os personagens têm a falsa impressão de uma escapatória. Nós também somos torturados com requintes de crueldade.

Enfim, o filme não é para todos os gostos, mas vai fazer diferença para quem aprecia aquele cineminha europeu aguçado. Ora, nem tanto assim, afinal o próprio Haneke entregou este ano a versão clean desta produção realizada em 1997 (não tem nem 10 anos). Agora com a ajuda de gente como Tim Roth, Naomi Watts e Michael Pitt. Dispenso a reeleitura e fico com a angústia macabra e inteligente do original.

Ponto Alto: o malucaço Paul (Arno Frisch) dá show.

Ponto Baixo: não gosto da ironia da metalinguagem. Entendo a proposta, mas a cena do rewind não entra de jeito nenhum.

26 de Agosto de 2007

Tarantino's Mind


Curta-metragem bem sacado realizado com talento brasileiro. Em um boteco paulistano Seton Mello destila seu estilo junkie-cool para conjeturar sobre a obra de Tarantino, enquanto Seu Jorge faz o papel do espectador incrédulo. Quinze minutos bem aproveitados. Exibido em festivais aqui no Brasil, foi fácil fazer fama no boca-a-boca.

Em tempo, entre as divertidas ilações sobre a obra do nosso nerd favorito, a do Top Gun como ícone do cinema gay tem destaque. Lembro do Some Kind of Wonderful (Alguém Muito Especial) em que Eric Stolz, Craig Sheffer, Lea Thompson e Mary Stuart Masterson fazem troca de casais em LA. O filme foi escrito pelo papa das comédias oitentistas, John Hughes, mas a cena em que Tarantino (em ponta não creditada) lança sua teoria sobre a ambigüidade sexual de Top Gun - durante uma festinha descolada - deve ter sido mesmo autoria do próprio.

30 de Julho de 2007

Seul Contre Tous

Gaspar Noé – este franco-argentino é um daqueles malucos que faz valer o termo extremo da expressão cinema extremo. O mais mainstream dos seus filmes, Irreversível, ganhou fama de maldito e doentio e jogou o cineasta novamente no limbo underground. A galera do lado de cá da indústria agradece. A saga maldita começou com o curta Carne (nunca vi, mas já ouvi comentários positivos) e se concretizou com o longa Seul Contre Tous.

O filme é cinza, escuro, claustrofóbico, angustiante, desajustado, enfim ou o espectador vê que tem gente que é pior que ele e agüenta o tranco ou entra numa depressão profunda que nem tarja preta dá jeito. A trajetória do açougueiro francês - interpretado pelo ator predileto do cineasta, Philippe Nahon - refugiado na periferia imunda de Paris é uma afronta a qualquer traço de civilidade ou bondade. O personagem é uma ode ao ódio - detesta gays, alemães, mulheres, negros, árabes... Xenofobia e preconceito, em doses nada homeopáticas, retratados por um Tim Burton quase pornográfico.

A única redenção, ou melhor, o único traço de humanidade está na pureza da filha autista. Mas Noé é tão escroto que este alívio explode em tons avermelhados no final. O final é forte; muito forte mesmo. Provoca ânsia nos organismos mais resistentes. Muito mais que o viés socialista da justificativa da violência pela pobreza econômica e a miséria social o filme nos mostra a sordidez humana, a gratuidade do desespero e da desesperança. Angústia ilimitada do mal que nós nos causamos. A desilusão em um país rico repleto de cidadãos e estrangeiros sem identidade. Nessa odisséia cosmopolita e violenta, ninguém é poupado. Todos são culpados e a fúria se torna justificável. Desilusão a tudo, todos e em todo lugar. Assim como seu cineasta, Seul Contre Tous é grande demais para o cinemão; é leão para o seu quintal.

Ponto Alto: os textos pontuando a narrativa.

Ponto Baixo: o filme sofre do efeito Apocalypse Now – agüente até o fim e entenda a grandiosidade da obra.

18 de Julho de 2007

Corrente Literária


Indicação da minha nova amiga Jamile e seu blog tudo vintage, ou não. Vou indicar cinco livros que realmente mexeram comigo. Obras que me fizeram mudar um pouco a percepção de mundo. Tem outros livros estupendos que tive de deixar de fora. Mas sem essa marra, pois lembro que fui fã do estilo escrotão de Harold Robbins (esse era guru, o que é aquele O Contador de Histórias?), da cafonice de Mario Puzo da prosa simples de Marcos Rey etc. Vão aí meus livros definitivos:

- Vidas Secas – Graciliano Ramos: retrato maravilhosamente belo, mas profundamente triste da realidade brasileira. Despertou em mim uma consciência social que, mal ou bem, carrego até hoje. Sem falar na morte da Baleia. O que é isso?

- O País do Carnaval - Jorge Amado: li quando tinha uns 16 anos e estava na fase da Bossa Nova... Descobri o porquê do brasileiro sorri apesar de tanta miséria e sofrimento. A euforia efêmera do carnaval vale sim.

- Amor nos Tempos do Cólera – Gabriel García Márquez: uma estória de amor linda, realista e tremendamente irônica. O autor acabou vítima do próprio talento, mas aqui entrega sua obra mais bem acabada. Não tenho dúvida disso.

- O Som e a Fúria – William Faulkner: isso é um assombro de talento. Difícil e perturbador, o livro de uma vida. Entender a mente maquiavélica de Jason Compson é algo que ajudou a moldar meu caráter. Final arrebatador, vale a pena resistir até o fim e entender o fascínio em torno desse Guimarães Rosa redneck.

- Lolita – Vladimir Nabokov: não há como ficar com raiva de Humbert Humbert. Ele é pedófilo (vamos assim dizer), mas na verdade é a vítima de tudo. Vítima de seus próprios desejos. Ela é a vilã – vale ler Triângulo Sensual pra entender bem essa ambigüidade da beleza, da inocência. Só os gênios conseguem e o nosso russo que escrevia em inglês sabia bem disso.

Só vou ficar devendo as outras cinco indicações de blogs. Desculpe amiga.

13 de Julho de 2007

Donnie Brasco

Esse filme é bem pessoal. Vi no cinema e fiquei maravilhado. Já era fã de Al Pacino e principalmente de Johnny Depp. Lembro que, terminado o filme, queria andar como os personagens e ficava repetindo “forget about it”. Tudo bem, admito que esse tipo de atitude não é lá uma prova de maturidade, entretanto me justifico pela ansiedade espinhenta em encontrar parâmetros de comportamento. Cinema e música eram e são as opções mais acessíveis. Mas não estou sozinho e fico tranqüilo quando vejo Woody Allen conversando com um conselheiro Humprey Bogart em Sonhos de um Sedutor. Com Johnny Depp lembro até de um filme chamado L.A Without a Map em que Johnny é o oráculo de um escocês que vai tentar a sorte na California.

Acabada a sessão divã, vamos falar dos diferenciais de Donnie Brasco. O mais bacana em acompanhar a aventura “baseado em fatos” do agente do FBI Joseph Pistone estabelecendo contato com a máfia italiana pela porta dos fundos é a sensibilidade em retratar o aspecto humano da história. A pirotecnia dos tiroteios e fugas espetaculares fica em segundo plano. Mike Newell é um bom diretor inglês e tenho respeito por ele mesmo depois de Monalisa Smile.

Aqui acompanhamos a angústia do agente infiltrado ao trair os amigos-bandidos e a relação delicada que enfrenta em casa com a esposa e as filhas. O cara cria uma amizade verdadeira com o personagem mais ingrato da carreira de Al Pacino (mais perdedor que o cozinheiro Frank e Johnny e o assaltante meia-tigela de Um Dia de Cão). Estamos falando do figuraça Lefty Ruggiero, um daqueles ítalo-americanos de meia-idade crescidos em Nova Iorque a sombra da máfia. Superestima sua importância para os outros, pois sabe da sua insignificância naquela faixa de mundo em que vive. E chega um cara mais novo que tem a chance de refazer seu próprio caminho, a segunda chance pela qual todos clamam. Sem puxar no clichê, mas esse é irresistível – o duelo de interpretações é de sair faísca.

Na verdade, sentimos pena de Lefty Ruggiero. Três cenas em particular chamam a atenção – o encontro no hospital na overdose do filho de Lefty, o convite que Depp recebe em um barco devido a incompetência do parceiro e o confronto mais intenso entre os protagonistas - Donnie pede a Lefty para dizer o nome de um “amigo” morto por eles sob suspeita de traição. Ah ia esquecendo do momento em que Pacin